poemas
poemas
Uma concha
Ninfa Parreiras
Procuro uma concha
Oca, vazia
Com poucos
Grãos de areia
De cor manchada
Rolada nas ondas
Ralada de dor
Uma concha-telhado
Com beira
De aparar o vento
Uma janelinha
A seguir estrelas
Soltas na ribeira
Espelhadas n’água
Uma concha-teto
Coberta de musgos
Protegida das tempestades
Colcha pros dias frios
Ventilada
Pras noites abafadas
De amor
Uma concha-caixa
Pra guardar
Lembranças
Ciscos
Espumas
Sopros
D’alma
Uma concha-casa
Pra receber
Poucos e loucos
Amigos e moluscos
Guardar livros
Folhas pros versos
Escritos nas marés
Uma concha-carta
Pra levar notícias
Aos de longe
Pra trazer
Versos
Vozes
Ventos.
Feitos à mão
Ninfa Parreiras
Preparar a massa
Enrolar as palavras
Adornar os versos
Assar um a um
Fazer o acabamento
Dos biscoitos diversos
Escolher os vidros
Apurar os sons
Os rótulos dispersos
Passar a receita
A limpo
Lavras viçosas
Servir aos amigos
A estrofe crocante
A melodia
Assim cozinha
O poeta
Dos sabores
(para o Ismar Barbosa, a gratidão em versos)
Pede
Ninfa Parreiras
Pé de goiaba, de gabiroba
Pé de jabuticaba, de jequitibá
Pé de tudo quanto é fruta
É lá que a minha criança
Mora, nas grimpas
Nos galhos garimpados
Pé de quintal
Pé de lá no fundo
Do tempo, vento que volta
A minha criança pede
Colo, calor, céu azul
Fogãozinho e foguete
A criança que me habita
É pó, polvo de abraços
Pede pé de tudo quanto é fruta.
(fotos: arquivo pessoal, Itaúna, MG, 2025)
Peneiras
Ninfa Parreiras
O que dizem as peneiras?
Esparramar grãos
Afofar a terra
O que pensam as peneiras?
Rodear sementes
Cimentar o cultivo
O que sentem as peneiras?
Germinar palavras
Circular de mãos e mães
O que dizem as peneiras?
Somente mudas
Molhar a cama vegetal
Muda Roupa do Clima
Ninfa Parreiras
Entre o luxo e o lixo
O planeta perde as roupas naturais
O que vestir no verão?
Se a chuva não chega por aqui
Como aquecer troncos e galhos
Se nem cai a temperatura
Como conter tanta tromba d’água?
Se não esperava tempestades
Como manter a estação de esqui?
Se nem neve há
O sertão vai virar mar?
O Saara vai virar rio?
A Amazônia vai virar deserto
De secas trilhas?
E a lua vai derramar sangue
Ninfa Parreiras
A lua menstruada?
a lua bêbada de vinho tinto?
acobreada e rubra
No eclipse lunar total
na penumbra da Terra
parte externa de sombra
Lua começa a escurecer
na umbra da Terra
porção escura de sombra
Surge a mordida no disco lunar
toda dentro da umbra da Terra
Lua de Sangue
Começa a sair da umbra
desaparece a roupa vermelha
a mordida no lado oposto do disco lunar
Lua sai da umbra
volta a ficar apenas
na penumbra
Poema para Dafne
Ninfa Parreiras
os seus pés viram raízes
suas mãos são galhos
seus cabelos são folhas
Dafne perfume de louro
Apolo zomba do deus alado
Eros brinca e atira
a flecha afiada
de ouro em Apolo
a flecha rombuda
de chumbo em Dafne
atração de amor em um
repulsa de amor na outra
na imortalidade da árvore
a ninfa protesta: não é não!
metamorfoseada em planta
Dafne sabor de louro
em fuga, a jovem
se transforma
em vegetal-protesto
Dafne cor de louro
vai, Dafne,
fugir para o bosque da imortalidade
vai, Dafne,
dizer (por todas as mulheres) não é não
vai, Dafne,
virar vegetal da glória
vai, Dafne,
ser loureiro
vai, Dafne,
ser inteira, sementeira
Brincar deveria ser uma Oração
Ninfa Parreiras
Que todos os dias
o brinquedo chova nos olhos das crianças
a brincadeira floresça no quintal
o brincar seja conjugado nas tantas línguas
a brinquedoteca teça espaços coletivos
a brincaria nomeie os encontros
Que o brincar alimente
o trabalho
a casa
a família
a escola
Que o vínculo do brinquedo
enlace
encante
entretenha
Que seja diversão
para os sonhos
para os dedos
para as mãos
para as pernas e pés
para a pele
para o corpo
coro do brincar
Brincar é ginástica para os sentimentos
o que esperam de mim?
Ninfa Parreiras
pesam toneladas páginas
lidas nos ombros
são 60 kg
de ocos ossos
cegas pelancas
e surdas rugas
secaram as tetas
de amamentar
vorazes raposas
vozes de exigências bombardeiam ouvidos
ditaduras de afetos nos áudios
parecem podcasts de cobranças
alimentar o sonho das outras
não é um construir juntas
sonhar juntas dá asas à lagarta
minhas mãos seguram
a caneta do desabafo
linhas livres de plumas de passarinhos